Eu poderia eleger uma heroína conhecida de todos para homenageá-la no Dia das Mães, mas a dura realidade, pra não dizer crueldade, que vivenciam as mães dos adolescentes e adultos infratores me faz questionar o Sistema de Justiça, Segurança e Atendimento (Unidades Privativas de Liberdade).
Mãe pra mim, é sinônimo de magia, amor e encantamento. Uma mulher nasce e cresce sonhando com o dia em que será mãe, para ela jamais um filho seu ou filha poderá se desviar do caminho de sonhos dourados por ela traçado, pois todas nós mães, vemos em nossos filhos, príncipes e princesas.
Há pouco tempo eu ouvi de uma Autoridade, dirigindo-se a uma mãe que acompanhava seu filho adolescente, usuário de drogas e não traficante, como foi rotulado, dizer:
– “Olhe, a senhora vai acompanhar o depoimento das testemunhas, mas não vá ter nenhum ‘siricutico’, desmaiar, porque nem álcool nós temos pra passar na senhora depois”.
E ali eu vi que aquele homem educado, preparado para o ofício que exerce, não enxergava naquelas mulheres, senhoras respeitáveis, que mereciam senão benevolência, um pouco de respeito. E aí eu pensei: “Será que todos os profissionais no exercício de sua profissão, perdem a sensibilidade de ver que cada caso é um caso? E que não se pode tratar nem o infrator, nem os seus familiares como se todos estivessem num bolo só, todos são bandidos, mentirosos e quem está certo é quem acusa, mesmo que não seja verdade?”.
Lembrei-me do que o Juiz Rosas dizia: “que infeliz do ser humano que caísse nas mãos de profissionais impiedosos ou até mesmo preguiçosos, que não buscassem a verdade, e sim, resolvessem ‘aquele caso’ como um cirurgião que opera uma perna e não o paciente que está com a perna enferma”, era a mais pura verdade.
Ouvi uma mãe, que jamais caminhou nos corredores tortuosos das Delegacias, Promotorias, Poder Judiciário, ou FEBEM’s (pra mim continua tudo a mesma coisa, mudou apenas o nome), estupefata ante a frieza e indiferença com que os profissionais da área de “ciências humanas” são inumanos quando tratam da vida dos outros, “filhos de ninguém”. Não interessa a vida pregressa daquele adolescente ou daquele adulto, é marginal, é bandido, a família é mentirosa, a mãe “protetora”, devia saber há muito, que ele é marginal.
Isso me remete a 1979, quando o então Secretário de Segurança Pública determinou que eu fosse à Penitenciária Barreto Campelo para trabalhar as policiais femininas que faziam a revista e olhavam os alimentos das mães e esposas dos presos políticos, vez que aquelas haviam solicitado do mesmo, medidas em relação aos maus tratos à elas impingidos durante as revistas, quando da visita aos seus filhos que não eram ladrões, assaltantes, homicidas, enfim, não haviam infringido o Código Penal, e sim, os conhecidos, “presos políticos”, por terem ideias e ideais diferentes, presos por expressarem seu pensamento. Era a Ditadura!
E lá, eu ouvi da mãe de um famoso preso político:
– “A senhora é policial mesmo?” – Ante a minha afirmativa, a mesma estranhou o tratamento rigoroso, mas educado. – “Desculpe-me, mas a senhora errou de profissão; seria muito bom se todos nos vissem como gente!”
Hoje eu gostaria de dizer a todas essas mães, que existem profissionais humanos que as enxergam, as compreendem, e que talvez até, passaram pelo mesmo que elas estão passando em seus próprios lares, mas que puderam mandar seus filhos à Europa, ou pra casa de parentes ricos, em outros estados ou país, e por isso, as infrações cometidas por seus filhos não chegaram ao conhecimento da Polícia. Daí, é lógico, não tendo ingressado no Sistema, jamais será tratado como um marginal nem a sua família, principalmente as mães. É até charmoso ou engraçado saber que certos artistas famosos pintam, cantam, esculpem, sob o efeito de drogas lícitas e não-lícitas, mas são poderosos.
Quando eu era criança e acompanhava meus pais no Dia das Mães aos presídios, hospital de hansenianos e do câncer, e até mesmo manicômios, como parte das comemorações para aliviar o espírito daquelas pessoas o grupo cantava, buscava talentos entre os doentes. Eu ouvia a minha irmã que cantava “Querida Mamãe” e que entre tantas coisas belas, diz a canção: “ela é o tesouro que o pobre das mãos do Senhor recebeu”.
É mãe; tu és o tesouro da vida de todos, até daqueles que se transformaram para a sociedade num bandido, e que escreve nas suas celas: “amor só de mãe”, seja ele adulto ou adolescente.
As mães se modernizaram, tiveram que ir à luta, não porque queiram abandonar seus filhos, e sim, porque a vida se tornou cada vez mais difícil, os homens menos comprometidos com a família, com honrosas exceções, é claro. E a luta pela sobrevivência não mudou o sentimento das verdadeiras mães, vez que algumas apenas pariram e não sabem o real significado de ser mãe.
Os poetas e cantores, decantam em versos, prosas e músicas, espelhados na Mãe maior, a Virgem Maria, o que é ser mãe, dádiva divina, que se não for através do ventre, pode ser através do amor maior que é a adoção. Os filhos do coração são tão filhos e queridos quanto os biológicos.
À você mãe, que está sofrendo peregrinando de porta em porta, querendo que as pessoas compreendam que o seu filho, para você, será sempre aquela criança que você embalou nos braços, amamentou, acompanhou os primeiros passos e viu crescer, e que se um dia foi desviado do caminho que você havia sonhado para ele, não deixou de ser seu filho e de ser humano.
Esse é um direito que todas as mães têm, já que muitos, ou todos, lhes são negados: o direito de amar, o direito de defender. Esses também são direitos humanos!
Não posso terminar essa crônica dizendo: Feliz Dia das Mães! Mas digo a todas: não desistam nunca de serem mães e todos os dias ao acordarem, busquem seus filhos, mesmo que eles já não mais lhe estendam a mãozinha à procura de segurança para atravessar os caminhos tortuosos da vida.
Seja simplesmente mãe!

5 comentários:
e eu aqui cheia de saudades da minha mãe, esta grande mulher, cheia de força, luz, amor e sabedoria. feliz dia das mães, mãe, que no dia de amanhã, que eu não te poderei te abraçar, Deus te cubra com bênçãos de luz.
Não sei se acredito que toda mulher nasce querendo ser mãe...acho que é uma construção social e não algo que vem com a natureza...mas sei que depois de passar por essa experiência, nunca mais nos vemos dissociadas desse lugar...e entre todas as coisas que passam...essa está sempre lá a nos lembrar que o amor tem nesse laço sua maior inspiração...se pudéssemos aprender a amar a todos os seres incondicionalmente como uma mãe, não mais haveria entre nós tanta dor e sofrimento.
Segue na íntegra o comentário feito em minha página do Orkut pelo amigo Jayme Lielson:
Formidável, minha nobre amiga
Você é uma mulher muito talentosa, com um precioso coração completamente voltado para as mais profundas e sutis questões sociais
Precisamos de mais uma mulher aguerrida, no parlamento estadual
Pense nisso, com carinho
Afetuosamente, Jayme Lielson
Dra. Olga Câmara, fostes, és e sempre serás uma uma guerreira incansável lutando contra as injustiças praticadas contra crianças, adolescentes e indefesos em geral.Muito obrigado por tudo e Feliz dia das Mães! Osvaldo Cavalcante.
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