quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O homem que sabia chorar

Ao longo da minha vida, conheci vários homens e mulheres que se escondem ou se brutalizam para que ninguém perceba que eles sofrem e choram ante o sofrimento material, a dor, a vergonha ou até msmo a alegria do reencontro com seus familiares, amigos ou alguém que um dia ele amou e que sente uma vontade imensa de abraçar estreitamente, juntar o seu coração numa batida só e dizer "eu te amo" e as lágrimas se encontrem como as águas da pororoca, que
deixa percebemos as diferenças daquela união.
Será que existem homens assim, que sabem chorar? Será que só os artistas, que são tão bons na dramaturgia, que demonstram os seus sentimentos através das lágrimas e nos emocionam? Não. Eu conheci um homem que sabe chorar, que não tem vergonha de expressar seus sentimentos, de mostrar o seu amor, de dizer "eu te amo", "eu a amo", "eu os amo".
Tenho certeza que você que me lê agora pensa: "ela criou um conto de natal. É um presente para nós, que perdemos a esperança de que ainda existem pessoas que podem ser chamadas humanas, que conseguem ver a verdadeira beleza de um sorriso de uma criança, a profundidade da expressão das rugas de um idoso, a singeleza do abraço fraterno de um verdadeiro amigo, o presente de Deus no amanhecer do dia e as luzes que se acendem a cair da noite e a profunda gratidão por poder dormir e sonhar".
Acreditem, não é um conto de natal. Essa pessoa existe. Às vezes, nós é que não conseguimos percebê-la porque vivemos num mundo tão conturbado que desaprendemos a ver as coisas mais naturais e belas que o Universo nos oferece. Já não conseguimos mais ouvir o próprio silêncio ou o som da batida do nosso coração; ver a beleza da queda de uma cachoeira, o farfalhar das árvores sorrindo, o 'canto' dos pardais anunciando o amanhecer de um novo dia, renovando a esperança nos corações daqueles que esperam que algo de novo surja em sua vida ou que simplesmente aguardam o dia para o labor diário.
Um dia, um grande homem me disse: "nunca deixe que a tristeza tome conta de você ao ponto de desacreditar na humanidade, de olhar no fundo dos olhos daqueles com quem você fala, pois neles você verá a alma dessa pessoa, e aceite sempre a crítica daqueles que se dizem seus inimigos, pois, por pior que sejam, às vezes dizem verdades que os amigos não têm coragem de falar.
É isso aí meus amigos, não tenham vergonha de chorar, de observar o olhar de uma criança, ainda que esteja suja ou mal vestida ou mesmo num berço de luxo, sorrindo para você, de observar que as rugas são as marcas do tempo e que devem ser respeitadas, pois elas falam da história de quem as possui.
Que nesse ano que termina, se você tiver vontade de chorar, não se envregonhe, chore, ponha para fora todas as suas dores e lágrimas, pois elas só atrapalham o seu crescimento interior, e sorria das vitórias, se alegrando com a vitória de todos, mas não esqueça: ao som das 12 badaladas, quando iniciaremos um novo ano, você será a mesma pessoa, terá o mesmo trabalho, os mesmos amigos, a família será sempre a sua família, pois só nos contos de fada é que a vida muda, como num toque de varinha de condão. É bom acreditar em duendes, fadas gnomos, nas histórias das crianças contadas ao som das vozes de nossas mães, nas quais as crianças são sempre belas, quando boas, e que as pessoas feias são sempre más. Lamentavelmente foi o que elas aprenderam, mas nós sabemos que o mundo não é assim. Na beleza se esconde, muitas vezes, um coração maldoso, capaz de fazer chorar.
Eu desejo a todos vocês que as tristezas do ano velho se dissipem com o belo amanhecer do ano novo, mas que guardemos todas as lições que aprendemos, façamos um balanço de nossas vidas, meditemos sobre nossos erros e acertos e que possamos fazer como aquele homem que sabia chorar: não nos envergonhemos, choremos, mas que também possamos sorrir; sorrir para a vida, para o mundo, para nós mesmos, pois a vida vale a pena. Como diz Gonzaguinha, viva e não tenha vergonha de ser feliz.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Mulheres Que Fizeram História

Olga foi homenageada no livro de Salma Bandeira DESCOMPASSO DO TEMPO
Dizem que coincidência não existe, acredito. Não foi por acaso que no dia 07 de Setembro do corrente ano, Salma Bandeira nos brindou com a sua doce leveza, reafirmando o que disse Fernando Pessoa: “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.
Salma, na sua brandura, com voz mansa e meiga, mostrou que ao som do violino de Clarice Amazonas, com acordes perfeitos, poderia dirigir uma delegacia em defesa das mulheres vítimas da violência doméstica e da brutalidade dos homens, sem perder a compreensão de que aqueles, na maioria dos casos, são vítimas também de seus próprios pais; é o perverso ciclo da violência. Não é à toa que ela também é psicóloga.
Em teu livro Salma, na p. 34, chamaste-me “a guerreira do século XXI”, agradeço-te. Sinto-me honrada, principalmente pela harmonia e beleza das tuas palavras ao comparar-me com Joana D’arc, com um destino mais afortunado. Será? Talvez perecer na fogueira da incredulidade, tendo como destino a morte que a arrebatou do sofrimento terreno por a chamarem de feiticeira, tenha sido menos doloroso, pois com certeza sua alma foi acolhida pelos anjos.
Diferente de outra Olga, a Benário, que amamentou sua filha com sangue para que não a arrancassem dos braços e com um fim parecido com o de Joana D’arc, foi assassinada, não mais na fogueira, e sim, num campo de concentração aguardando pela câmara de gás; de quem tenho o orgulho e sempre honrei o nome, Olga, que significa “santa guerreira”. Jamais quis ser santa, mas guerreira eu sou. Não sei se a “mensageira prometida” Salma, ou a mulher esperada do milênio.
Tentei sim, resgatar um mundo de preconceitos e de trevas, demonstrando o que é uma polícia cidadã, que sabe cumprir o seu papel convivendo com o mal, com a morte, com a violência contra criança, mulheres e idosos, mas sempre me orgulhei e ensinei àquelas que tive como alunas, que usássemos a inteligência e a astúcia feminina, mesmo que portássemos a arma que o Estado coloca em nossas mãos; o verbo e o rigor na hora do interrogatório, pautadas no mais alto senso de justiça para não mandarmos inocentes para a cadeia, mas que continuássemos usando pérolas e amando as rosas.
Hoje a Delegacia da Mulher é uma realidade. Fez aniversário, 25 anos, Jubileu de Prata. Momento que aproveito para exaltar a coragem, altivez, persistência, perspicácia de todas as mulheres que enfrentaram o grave preconceito da maioria dos homens e por incrível que pareça, de grande parte das mulheres.
Mas é assim, todo aquele que lança uma nova ideia está sujeito a ser desacreditado. Fomos a 2ª delegacia inaugurada, São Paulo saiu na frente por puro acaso, vez que em 1982 já lançávamos a ideia para o então Secretário Sérgio Higino e o inesquecível Delegado Mauni Figueiredo, grande incentivador e defensor das mulheres policiais.

Salma Bandeira ladeada por seus filhos Zilma e André (Foto Fernando Machado)

A admirável delegada, psicóloga, escritora, enfim, a mãe, a avó, a doce mulher que veio lá do Norte, tem sangue guerreiro nas veias e na sua poesia demonstrou sempre que ser delegada de polícia combina sim, e muito bem, com a elegância e beleza feminina.