Padre Ramiro Ludeña y Amigo
Para centenas de pessoas você morreu, mas para todos aqueles que te conhecem, que acompanharam tuas obras, que partilharam no dia-a-dia das tuas preocupações com crianças e adolescentes de rua, na rua, ou abandonados, continuas vivo. Apenas, mudaste de morada, voltaste à Casa do teu Pai.
Conviver com Padre Ramiro principalmente quando implantávamos o Estatuto da Criança e do Adolescente, e até antes mesmo, quando assumiu a chefia de gabinete da antiga FEBEM, que tinha com presidente o ex-deputado Sérgio Logman, percebia-se o homem duro, inflexível ante o descaso do Estado no tocante ao bem-estar das crianças e adolescentes, e o doce e meigo amigo, quando encontrava as pessoas que o cercavam, funcionários do mais alto escalão, ou do médio, operadores do Direito, pelo compromisso com aqueles que ele defendeu durante toda a sua vida aqui no Brasil. Para alguns, 34 anos, e para quem participou da sua jornada, 30 anos parecem 3 horas, 30 horas ou 30 dias.
Para quem não te conheceu bastante, amigo, e não partilhou das “brigas, dos “enfrentamentos” com aqueles que não compreendiam o Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente (CEDCA), responsável pela política de atendimento dos mesmos, e até hoje poucos compreendem, quando o implantávamos (em setembro de 1990, o primeiro do Brasil), e foste o primeiro Presidente, eras apenas uma pessoa comprometida que estava esquecido dos embates diários e do conhecimento público. Para nós que convivemos tão perto, fica a saudade e a certeza de que trilhaste o caminho certo.
Quem conversou apenas uma vez contigo jamais te esquecerá. Apesar da aparente inflexibilidade, não só pela formação teológica, mas acima de tudo, pelo compromisso com a vida, nunca rotulaste alguém e nem tão pouco tiveste preconceito, apesar de no início quando nos conhecemos, teres um pouco de receio da Polícia como membro efetivo do CEDCA. Mas, aos poucos, foste percebendo que tinhas aliados e denunciavas a violência silenciosa, camuflada, contra meninos e meninas de rua, partisse de onde fosse.
O que mais encanta na tua prática, é a ausência de dogmatismos, e sim, a forma simples como viveste, como te vestias, de camisa, calça jeans e sandálias franciscanas normalmente. Te apresentavas como um homem preocupado com a vida daqueles que não têm, ou não tiveram, quem lhes estendesse a mão sem que lhes pedisse nada em troca.
Lembro-me com saudade da tua maneira aguerrida e destemida de falar do Código de Menores e do Estatuto da Criança e do Adolescente posteriormente, do compromisso de cada um de nós. Lembro-me também que profetizaste que se nós não tivéssemos muito cuidado, o Código de Menores seria reeditado no Brasil. E há pouco tempo quando nos encontramos, conversamos sobre isso, que o Código de Menores estava voltando silenciosamente sob os auspícios de antigos defensores do Estatuto, que não têm o mínimo escrúpulo de “acolher”, “defender”, “proteger” os “adolescentes” do mundo aqui fora em unidades privativas de liberdade (prisão preventiva de 45 dias até por furto famélico, ou porque queria comer um chocolate. Voltou a época da carrocinha?).
“Estranhamente e de forma inacreditável, para muitos, foste atingido por um adolescente, ceifando a tua vida entre nós”.
Ramiro, que tinha “Amigo” no nome, foste para muitos um guerreiro da paz que usavas o verbo eloquente para convencer os céticos. A Mãe Terra por ti arada com pequenas mãos que te acompanhavam, acolheu em seu seio o teu corpo, mas a tua história, as tuas obras, ficaram e permanecerão sempre com os que dela se beneficiaram e com os que te conheceram de verdade.
Ramiro, como diz a canção: “...Amigos para sempre é o que nós iremos ser, na primavera ou em qualquer das estações, nas horas tristes ou nas horas de prazer amigos para sempre ...”.
Até breve, jamais adeus!!!
