quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Ao Mestre, Com Saudades!

No dia 28 de Outubro, comemora-se o Dia do Funcionário Público, profissionais que recebem as mais diversas denominações. Falo daqueles que são concursados, regidos pela CLT. Vez que os de cargos comissionados, vêm e vão a cada governo, na grande maioria, apadrinhados por um partido político ou por alguém de tamanha seriedade que reconhece o valor profissional e não se a pessoa é filiada a tal ou a qual partido. Já vivi momentos como esses, quando trabalhei em Brasília no Ministério da Justiça, quando trabalhei nos governos de: Miguel Arraes, Joaquim Francisco, Roberto Magalhães e Jarbas Vasconcelos em Pernambuco, onde exerci cargos comissionados, embora seja concursada. Os convites sempre me surpreendiam um pouco, porque normalmente só alguém que faz parte de um grupo ou de um partido, não interessa se competente ou não, é que ocupa os cargos relevantes. Bem, isso foi apenas uma reflexão, mas o que eu quero mesmo é homenagear todos os funcionários públicos que sabem o que é trabalhar com o público, respeitando-o, principalmente aqueles que não recolhem impostos porque não têm com o que sobreviver e que quando buscam os serviços públicos normalmente ficam no fim da fila por muiiiiiiiiiiiiiiito tempo por não serem contribuintes, não terem nenhuma credencial a mostrar. Isso me faz lembrar um passado próximo e na pessoa do meu eterno professor Geraldo de Faria que recebeu a Medalha José Mariano 2008 pós-morte, pois as homenagens a ele em vida foram muito poucas, por ser aquele um homem de posições duras, um professor aparentemente inflexível , mas a pessoa mais amorosa, benevolente, carinhosa e acolhedora que eu conheci quando ingressei na Polícia até os últimos dias de sua vida.

Foto: Arquivo Pessoal

Saudade é pouco para falar do que sinto neste momento. Sinto falta de você meu mestre! Os homens parecem que nascem ciclicamente a nos educar para a vida. Tenho certeza que se estivesses ainda entre nós teu coração e tua mente estariam em ebulição, vez que já não somos a Polícia do teu tempo, uma polícia respeitável e respeitada, com jovens policiais que acreditavam num mundo melhor e que sempre o ouviam antes de tomarem alguma decisão questionável, mesmo depois de sua aposentadoria. Os policiais mais velhos com posturas iguais à sua, eram vistos como farol nas noites de tempestade pelo capitão de um navio que busca porto seguro. O respeito à sua seriedade e honradez nos fez seus eternos alunos e aprendizes. Nos acostumamos a ouvir duras palavras, chorarmos até, ou então palavras de incentivo, coragem para que continuássemos acreditando que poderíamos construir uma Polícia e conseqüentemente, um mundo melhor. Quem pode esquecer o coordenador da Academia de Polícia em 1986 que nos fazia, de tanta pressa, engolir o sanduíche inteiro porque se chegássemos à sua aula com um segundo de atraso não entrávamos mais, e era uma falta muito grave! A Academia de Polícia do estado de Pernambuco fazia escola para o Brasil e éramos todos comandados por aquela voz forte; mas suave, quando reconhecia que estávamos corretos. Jamais vou me esquecer quando transformei suas palavras em uma placa de prata: “Eu não sou da Polícia, não trabalho na Polícia, eu sou a própria Polícia”, e pela primeira vez o coordenador, professor de investigação policial sendo homenageado no Dia dos Professores, coincidentemente também em outubro, não teve vergonha de mostrar que policial tem sentimento e chora. É Professor, como esquecer também quando por uma questão de saúde perdeste a visão parcialmente e carinhosamente chamavas de “filha” eu e Jaqueline, a quem chamamos Jackie, perita das boas; claro que não podia ser diferente era sua filha mesmo, honra as raízes, éramos seus olhos e suas mãos. Devo render-lhe homenagem também quando nos anos 90, mesmo um pouco antes, já profundamente engajada na questão da criança e do adolescente, tive grandes dificuldades com vários colegas. Não foram poucos que me chamavam de “Madre Tereza de Calcutá”, “Irmã Dulce”, por ter abraçado a causa da criança e do adolescente. Os adjetivos como os citados eram poucos, mas os ofensivos eram muitos, e como Presidente da Associação dos Delegados o senhor me defendeu e passou a participar dos Seminários que promovíamos, levando consigo os meus opositores, porque eu era mulher e muito jovem, mas o senhor, “homem e extremamente respeitado”. Inclusive mais uma vez vi lágrimas de emoção em sua face quando em Maceió num Seminário para delegados sobre o Direito da Criança e do Adolescente o senhor conclamou que todos apoiassem a Lei 8069/90 por ser uma lei dos novos tempos, que “evitava que o menino se tornasse criminoso”. Numa frase simples, o senhor disse tudo o que é e o que quer o Estatuto da Criança e do Adolescente: a prevenção primária que o Estado brasileiro ainda não compreendeu. Fizemos um curta, “O Outro Lado do Brasão”, quando terminei Jornalismo, onde o senhor diz que nós policiais somos todos chamados de ladrões, bandidos, sem na verdade nos conhecerem e nem procurarem saber quem somos, que não viemos de outro planeta, que somos fruto da própria sociedade. E refletindo sobre suas palavras ditas em 1997, resolvi criar alguns prêmios com o apoio é lógico do governo “Policial Amigo da Criança”, o que causou verdadeira ebulição, porque ainda em 1983 no governo Moura Cavalcanti (in memorian), por pura iniciativa nossa, criamos o prêmio na escola pública de redação sobre o policial com uma comissão formada por Dr. Plauto Moreira, Mestre, Doutor em Lógica e Filosofia da UNICAP (in memorian), por Aldo Paes Barreto entre outros nomes respeitáveis, com o apoio do BANDEPE; e o garoto vencedor, foi um que não elogiou a Polícia, e sim, numa crítica infantil mas séria, “gostaria que o policial fosse aquele que quando ele estivesse com medo, como o seu pai, lhe desse a mão e ele se sentisse forte”. O Secretário de Segurança Pública, Sergio Higino vibrou com a escolha. Como esquecer Professor quando surpreendida em 2001, fui feita Chefe de Polícia? Procurei meu mentor e mesmo já gravemente enfermo estava sempre pronto a orientar-me e a dizer-me qual melhor atitude em alguns momentos difíceis. O resultado daquele concurso para nós foi o alicerce de uma idéia que se concretizou com o prêmio “Policial Amigo da Criança”, a emoção vista não só através das lágrimas, mas do beijar o próprio prêmio quando agraciados, inclusive o senhor, era gratificante. Mas a maior emoção foi quando criamos o prêmio de Direitos Humanos “José Gregori”. A escolha passou por uma comissão constituída pelos órgãos de classe e de Direitos Humanos a exemplo do CENDHEC (Centro de Estudos Dom Hélder Câmara) e “Tortura Nunca Mais”. A escolha foi difícil, passou numa peneira, e claro, só recebeu o prêmio quem realmente tinha grandes serviços policiais em defesa dos Direitos Humanos, prestados ao Estado. O prêmio em sua portaria de criação homenageia apenas policiais civis estaduais ou federais, militares e bombeiros, vez que dificilmente um policial é elogiado pelo que faz, “é sua obrigação morrer em nome da ordem pública”. Mas seu nome foi lembrado e reverenciado por todos os membros da comissão. Foram apenas 12 agraciados no Dia Internacional dos Direitos Humanos (10/10/2001), e chorando copiosamente o Mestre disse ao então Embaixador do Brasil em Portugal, José Gregori, que “pela primeira os policiais homenageados não eram indicados por ‘serviços prestados a políticos’ mas sim, à população mais carente”.

Da esquerda pra direita: Jornalista Gerlândia Bezerra, Perita Jaqueline de Faria, Profº Geraldo de Faria (sentado), Ex-Ministro José Gregori, Ex-Chefe da Polícia Civil Olga Câmara. (Foto: Arquivo Pessoal)
É professor, como era bom que pudéssemos novamente, mesmo em uma cadeira de rodas como era o seu caso, sentarmos e conversarmos sobre a nossa Polícia, e não nos cingirmos apenas a recebermos pacotes prontos, inacabados, discutidos por policiólogos, que vêem os policiais antigos como sucata.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Refletindo...

Outubro, mês em que se comemora o Dias das Crianças e também dos Professores, eu diria que um não sobrevive sem o outro. Todos nós adultos temos doces lembranças de nossos mestres, principalmente daqueles que são verdadeiros educadores, que não alfabetizam apenas, mas educam para a vida. Creio que aqui cabe uma reflexão. Hoje, crianças têm medo de adultos e adulto tem medo de crianças. Crianças nos sinais, nas ruas, de rua, crianças torturadas, abusadas, abandonadas. Professores que já não se encantam ao entrarem em suas salas, que já não recebem sorrisos, flores, mas que também já não sabem contar estórias de fadas, mantendo a magia da existência da infância (isso é; em colégio público, claro, que vem a cada dia sendo esquecido por mais que se diga o contrário). Ainda há, é lógico, educadores anônimos nos recantos desses 5.563 municípios. Professores que ainda levam a sua turma ao jardim zoológico, às praças, que comem pipoca, mas que não vêem a “banda passar”. O que fazer diante desse quadro? Será que esquecemos que um dia fomos crianças? Esquecemos como era bom brincar de boneca, de bola de gude, bater bola na rua com os colegas? Pular da pedra mais alta de um açude, comer algodão-doce? Chupar manga em cima da árvore, assar castanha depois de se sujar todinho de caju? Esperar o homem do pirulito e do quebra-queixo, andar de mãos dadas com nossos(as) amigos(as) e com os nosso pais? Hoje é brega, é mico. A noite sentar nas calçadas ouvindo nossos pais conversarem sobre coisas amenas apreciando o luar! É, eu via meu pai atento à Hora do Brasil, era a Era do Rádio. Logo depois veio a TV, mas os programas... ah os programas eram maravilhosos!!! Bonanza, Zorro, Lassy, Rin-tin-tin, A Feiticeira... E os livros? Ah os livros... esses eram encantadores, uma verdadeira viagem ao mundo da imaginação para nós: O Pequeno Príncipe, O Guarani e todos os de José de Alencar. E os filmes? Lembro-me quando vi A Noviça Rebelde (já era adolescente, claro), fiquei encantada! Essa era uma época muito bela, onde nós não víamos e nem ouvíamos o ricochetear das balas perdidas, nem corpos estendidos no chão. O que será que mudou? Fomos nós? Foram os governantes? As legislações cada dia se tornam mais duras, mas as pessoas esquecem que a única Lei que prevalece na vida é a Lei que nos foi ensinada há mais de 2000 anos: a Lei do Amor! Será que endurecemos tanto que não sabemos mais o que é amar? Que não nos encantamos com a lua cheia, com seus raios prateados iluminando o mar? Com o sol que nasce a cada manhã trazendo esperança? Com a criança que sorri estendendo os bracinhos numa demonstração de amor e confiança? Com as rugas do idoso nos dizendo a cada instante que devemos respeitá-lo por sua história, por suas marcas? Pois com certeza um dia como ele, sentiremos saudade de tudo que vivemos ou deixamos de viver. Lembrando apenas que o sorriso da criança e as marcas que os idosos trazem no rosto, são como o amanhecer e o anoitecer, e que nós vivemos esse processo. E que se não voltarmos urgentemente a um tempo bom, onde o respeito, o amor, a solidariedade, a bondade, a benevolência nos fazia sorrir, mesmo com um pouco de inocência, os meses de outubro talvez deixem de fazer parte do calendário, pois como dizia Gonzaguinha, “somos eternos aprendizes”. Sem mestres e sem crianças, só sobra a amargura de quem envelheceu e não viveu. Olga Câmara.