Foto: Arquivo Pessoal
Saudade é pouco para falar do que sinto neste momento. Sinto falta de você meu mestre! Os homens parecem que nascem ciclicamente a nos educar para a vida. Tenho certeza que se estivesses ainda entre nós teu coração e tua mente estariam em ebulição, vez que já não somos a Polícia do teu tempo, uma polícia respeitável e respeitada, com jovens policiais que acreditavam num mundo melhor e que sempre o ouviam antes de tomarem alguma decisão questionável, mesmo depois de sua aposentadoria. Os policiais mais velhos com posturas iguais à sua, eram vistos como farol nas noites de tempestade pelo capitão de um navio que busca porto seguro. O respeito à sua seriedade e honradez nos fez seus eternos alunos e aprendizes. Nos acostumamos a ouvir duras palavras, chorarmos até, ou então palavras de incentivo, coragem para que continuássemos acreditando que poderíamos construir uma Polícia e conseqüentemente, um mundo melhor. Quem pode esquecer o coordenador da Academia de Polícia em 1986 que nos fazia, de tanta pressa, engolir o sanduíche inteiro porque se chegássemos à sua aula com um segundo de atraso não entrávamos mais, e era uma falta muito grave! A Academia de Polícia do estado de Pernambuco fazia escola para o Brasil e éramos todos comandados por aquela voz forte; mas suave, quando reconhecia que estávamos corretos. Jamais vou me esquecer quando transformei suas palavras em uma placa de prata: “Eu não sou da Polícia, não trabalho na Polícia, eu sou a própria Polícia”, e pela primeira vez o coordenador, professor de investigação policial sendo homenageado no Dia dos Professores, coincidentemente também em outubro, não teve vergonha de mostrar que policial tem sentimento e chora. É Professor, como esquecer também quando por uma questão de saúde perdeste a visão parcialmente e carinhosamente chamavas de “filha” eu e Jaqueline, a quem chamamos Jackie, perita das boas; claro que não podia ser diferente era sua filha mesmo, honra as raízes, éramos seus olhos e suas mãos. Devo render-lhe homenagem também quando nos anos 90, mesmo um pouco antes, já profundamente engajada na questão da criança e do adolescente, tive grandes dificuldades com vários colegas. Não foram poucos que me chamavam de “Madre Tereza de Calcutá”, “Irmã Dulce”, por ter abraçado a causa da criança e do adolescente. Os adjetivos como os citados eram poucos, mas os ofensivos eram muitos, e como Presidente da Associação dos Delegados o senhor me defendeu e passou a participar dos Seminários que promovíamos, levando consigo os meus opositores, porque eu era mulher e muito jovem, mas o senhor, “homem e extremamente respeitado”. Inclusive mais uma vez vi lágrimas de emoção em sua face quando em Maceió num Seminário para delegados sobre o Direito da Criança e do Adolescente o senhor conclamou que todos apoiassem a Lei 8069/90 por ser uma lei dos novos tempos, que “evitava que o menino se tornasse criminoso”. Numa frase simples, o senhor disse tudo o que é e o que quer o Estatuto da Criança e do Adolescente: a prevenção primária que o Estado brasileiro ainda não compreendeu. Fizemos um curta, “O Outro Lado do Brasão”, quando terminei Jornalismo, onde o senhor diz que nós policiais somos todos chamados de ladrões, bandidos, sem na verdade nos conhecerem e nem procurarem saber quem somos, que não viemos de outro planeta, que somos fruto da própria sociedade. E refletindo sobre suas palavras ditas em 1997, resolvi criar alguns prêmios com o apoio é lógico do governo “Policial Amigo da Criança”, o que causou verdadeira ebulição, porque ainda em 1983 no governo Moura Cavalcanti (in memorian), por pura iniciativa nossa, criamos o prêmio na escola pública de redação sobre o policial com uma comissão formada por Dr. Plauto Moreira, Mestre, Doutor em Lógica e Filosofia da UNICAP (in memorian), por Aldo Paes Barreto entre outros nomes respeitáveis, com o apoio do BANDEPE; e o garoto vencedor, foi um que não elogiou a Polícia, e sim, numa crítica infantil mas séria, “gostaria que o policial fosse aquele que quando ele estivesse com medo, como o seu pai, lhe desse a mão e ele se sentisse forte”. O Secretário de Segurança Pública, Sergio Higino vibrou com a escolha. Como esquecer Professor quando surpreendida em 2001, fui feita Chefe de Polícia? Procurei meu mentor e mesmo já gravemente enfermo estava sempre pronto a orientar-me e a dizer-me qual melhor atitude em alguns momentos difíceis. O resultado daquele concurso para nós foi o alicerce de uma idéia que se concretizou com o prêmio “Policial Amigo da Criança”, a emoção vista não só através das lágrimas, mas do beijar o próprio prêmio quando agraciados, inclusive o senhor, era gratificante. Mas a maior emoção foi quando criamos o prêmio de Direitos Humanos “José Gregori”. A escolha passou por uma comissão constituída pelos órgãos de classe e de Direitos Humanos a exemplo do CENDHEC (Centro de Estudos Dom Hélder Câmara) e “Tortura Nunca Mais”. A escolha foi difícil, passou numa peneira, e claro, só recebeu o prêmio quem realmente tinha grandes serviços policiais em defesa dos Direitos Humanos, prestados ao Estado. O prêmio em sua portaria de criação homenageia apenas policiais civis estaduais ou federais, militares e bombeiros, vez que dificilmente um policial é elogiado pelo que faz, “é sua obrigação morrer em nome da ordem pública”. Mas seu nome foi lembrado e reverenciado por todos os membros da comissão. Foram apenas 12 agraciados no Dia Internacional dos Direitos Humanos (10/10/2001), e chorando copiosamente o Mestre disse ao então Embaixador do Brasil em Portugal, José Gregori, que “pela primeira os policiais homenageados não eram indicados por ‘serviços prestados a políticos’ mas sim, à população mais carente”.
Da esquerda pra direita: Jornalista Gerlândia Bezerra, Perita Jaqueline de Faria, Profº Geraldo de Faria (sentado), Ex-Ministro José Gregori, Ex-Chefe da Polícia Civil Olga Câmara. (Foto: Arquivo Pessoal)
2 comentários:
Arrasou, mãe! até eu me emocionei lembrando do Dr. Geraldo... do vídeo "O outro lado do brasão" e seus depoimentos... parabéns pela iniciativa, pelo ingresso nesse mundo virtual. a sra. te mesmo muito a dizer e este é um excelente canal!
Parabens Dr.Olga!!!muito bom esses elogios a esta pessoa que realmente merece. um grande abraço para Isabelle.
Abraao Musico.
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