Foto: Alexandro Auler/ JC Imagem/AE
Ante tanto descaso com crianças e adolescentes, principalmente as vítimas de violência que num futuro muito mais próximo do que se possa esperar tornam-se infratoras por não verem seus direitos protegidos como preconiza a Carta Magna em seu inciso IV, a lei específica conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente, as Convenções Internacionais como a Declaração Universal dos Direitos da Criança que trata do Superior Direito da Criança. Vemos o Ministério Público, Médicos, Organizações Não-Governamentais e Estado, cumprindo e protegendo o superior direito de uma criança de apenas 09 anos e, 33 Kg, grávida de mais 02 (duas) crianças. Pode-se aqui proclamar o direito canônico?
Por mais que se seja contra o aborto em mulheres adultas, que sabem o que estão fazendo e que não tomam as devidas precauções, o Código Penal de 1940 onde os homens em sua “superioridade” já previam que a mulher, vítima de estupro, tem a opção de embalar em seus braços o fruto de uma violência sofrida ou de retirar de seu corpo antes que o tempo o faça (09 meses), pois de sua mente, o ato da violência sofrida jamais será apagado.
Entendo que não cabe nenhuma polêmica, a Lei é clara, embora tente-se questionar do ponto de vista religioso, uma criança vítima de um abuso sexual continuado, pois o estupro ocorrera 03 anos antes, fazendo-a mulher com apenas 06 anos, gerando em seu útero infantil 02 (duas) vidas.
O que seria mais importante, esperar-se que aquele útero possivelmente não suportasse a gestação de dois seres e ela morresse, pois “seria a vontade de Deus”? Ou antecipar-se aos fatos e salvar uma vida, que necessita agora de que todos nós que nos dizemos defensores de Direitos Humanos, principalmente de Crianças e Adolescentes? Não importa o credo, etnia, se é governamental ou não-governamental e muito menos classe social, o que interessa é que estejamos todos unidos num só pensamento: o de proteger a vida e a saúde mental de quem deveria apenas brincar de boneca!
Quem se arvora o direito de julgar o Ministério Público, ou seja, a Promotora que tomou a decisão inicial, a equipe médica e a mãe, que embora tardiamente, percebeu o sofrimento de suas filhas, uma vez que a mais velha também sofreu abuso sexual do padrasto?
Gostaria de ressaltar a corajosa decisão do médico Olympio Moraes, o Ministério Público, na pessoa da Promotora Glória Ramos Coordenadora da Promotoria da Infância e Juventude do Estado; a Secretária Estadual da Mulher, Cristina Buarque, pelo apoio à criança e consequentemente à sua mãe, enfim, a toda a equipe que se mobilizou em torno de mais um caso drástico, envolvendo o sofrimento de uma criança.
Pois é, o caso de nossa menina veio à público. Ela nasceu em Alagoinha, a cidade de uma advogada amiga, que diz com seu jeito brejeiro: “é uma rua só!”, e tomou proporção nacional.
Como profissional que trabalha na área, eu diria apenas que esse é um das centenas de casos que ocorrem todos os dias nesses 5.556 municípios brasileiros. Pais, mães, famílias inteiras estão discutindo o assunto em todos os ambientes, até nos lares durante as refeições.
Será que não está na hora de dizer-se a todos os Conselheiros Tutelares que não titubeiem, que não se sintam invasivos, ou ponham suas crenças religiosas acima dos direitos da criança , quando notificados sobre um caso como esse?
E que as demais autoridades, sejam elas da Infância e Juventude ou não, têm o dever não só legal, mas, moral, de agir pautando-se exclusivamente na defesa do direito da criança.
Li no Jornal do Commercio (05/03/2009), que o Ministério Público está com o pai da criança, vítima de violência, na mira. Permitam-me os senhores Promotores, embora a mãe tenha tomado as devidas providências após tantos anos de sofrimento, entendo que a mesma, por maior que seja o seu sofrimento, foi negligente com suas duas filhas, do ponto de vista legal e humano.
Creio que nos cabe agora uma grande reflexão: quantas Marias e Joões não vem sofrendo abusos e todo tipo de violência e prevalece a “lei do silêncio”?
5 comentários:
Um fato lastimável é o comportamento da igreja católica que parece estar vivendo na idade média, onde adotam uma postura conservadora com a equipe médica que fez a intervenção cccirúrgica, ao mesmo tempo que não toma medidas concretas contra os religiosos envolvidos em escândalos sexuais muitos envolvendo crianças, ai sim ela é moderna.
Muito bom mesmo, explicado claramente e um pensamento devidamente centrado.
mui agradeço
Bira
Dra. Olga,
Parabéns pelo comentário. Suas palavras são coerentes com sua visão da defesa dos Direitos Humanos. Lamento apenas a presença em Pernambuco, terra de tantos revolucionários, terra de pessoas libertárias, desse Arcebispo infeliz.
Abraço, Paulo.
O texto abaixo é de autoria de Lúcia Moreira, que me enviou através de email, para postar em seu blog.
"Cara Olga
Soube hoje por uma amiga de Recife da existencia do seu blog, o que me da oportunidade de conversar com você daqui de longe, do frio da Inglaterra.
Estava ai em Recife de férias quando foi noticiado o caso da garota de Alagoinha e confesso que a reacão da Igreja Catolica me chocou quase tanto quanto o crime em si.
Mas a reflexão que gostaria de fazer hoje é sobre a resposta que é dada pelas autoridades às denuncias de abusos contra a crianca e ao risco e abandono que nois profissionais, as vezes as colocamos, quando incentivamos a denúncia de abuso e não temos a resposta eficaz e necessária do poder público. Eu pessoalmente venho acompanhando um caso que ajudei a denunciar quando estive ai em meados de 2007, de um estupro e continuo abuso sexual de um garoto de 10 anos. A polícia investigou, o IML comprovou, mas o caso ainda está lentamente sendo processado, estando agora me parece finalmente na Vara da Infância aguardando audiência. Mas dois anos se passaram e o agressor continua solto, trabalhando no mesmo local, morando na mesma comunidade, convivendo diariamente com a vítima, e o que e pior, continua abusando de criancas e ainda zombando da família do garoto. Este menino está agora com 12 anos e com sérios problemas físicos e emocionais, e ninguem pra dar apoio. E a pobre mãe se diz impotente e arrependida de ter seguido os meus conselhos.
Ainda bem que no caso da menina de Alagoinha a justica foi feita e os profissionais envolvidos devem estar agora com a cosciencia tranquila do dever cumprido.
Um grande abraco e continue sua luta!
Lucia Moreira"
O texto a seguir é de autoria de Alire Moura.
Boa noite, querida tia!
Não consegui enviar meu comentário. Por isso, estou transcrevendo-o para o e-mail.
Bjs!
Alire
Comentário sobre matéria a respeito do estupro da menina de 9 anos, de Alagoinha:
Sou católica e me sinto, por vezes, descrente do que pregamos. Como mãe e psicóloga, independente de qualquer religião, penso: que condições psicológicas, emocional, espiritual, social, física, financeira,etc., uma menina de nove anos teria de ser mãe? Seria justo colocar uma ou duas crianças (tanto faz) no mundo nessas condições? Sem falar na paternidade cruel desses fetos que, com certeza, se tornariam uma tortura para aquela que vê nos filhos uma imagem e lembrança dolorosa de tudo o que vivenciou. Que futuro uma mãe ainda criança, poderia oferecer a seus filhos, se ela mesma ainda precisa de cuidados, orientação e segurança? Com certeza um futuro obscuro, promovido pela incerteza da própria infância que mãe e filhos se encontram. Parabenizo aqueles que tiveram a coragem de enfrentar o sistema, e exerceram de fato as profissões que abraçaram, se preocupando, principalmente, com sua cliente ou paciente e não com a triste conveniência, imposta pela sociedade.
Att.,
Alire Moura
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